Sobre Empreender em Turismo

5.01.2021 | Artigos | 0 comments

Portugal tem sido muito incentivado a empreender nos últimos anos. A evolução das práticas laborais e do mercado de trabalho, bem como uma maior literacia por parte da população, tem levado a uma tendência voltada para a independência, para a emancipação dos profissionais. Ainda assim, empreender continua a ser muito receado pela maioria, que procura estabilidade, segurança e certezas. Será uma ilusão? Para me ajudar a desmistificar estas questões e perceber se empreender será uma boa opção para os profissionais do setor do Turismo, convidei a Sandra Marques, mentora de empreendedores, para nos elucidar.

CR – Sandra, afinal o que é empreender?

SM – Olá Cátia! Grata por este convite para falar de um tema tão importante e, ao mesmo tempo, tão delicado. Atrevo-me a dizer que Empreender é ter a capacidade de liderar a nossa própria vida.

CR – E como é que isso se consegue?

SM – Assumindo a responsabilidade das nossas próprias escolhas. Além disso, é preciso ser persistente, ativo, ter a mente aberta para novas ideias e alguma flexibilidade. Mas, mais importante ainda: objetivos específicos e um plano de negócio e marketing bem estruturado, com público-alvo delineado. Só assim se consegue ter uma comunicação clara e estratégica. Antes de se apresentar ao mundo, é necessário fazer este caminho e ter um guião para o negócio. Outra coisa fundamental é a nossa autoconfiança. É preciso estarmos seguros das nossas capacidades, para podermos enfrentar as falhas normais que vão surgir e tratá-las com pensamento orientado para as soluções, em vez de focar nos problemas.

CR – Faz todo o sentido Sandra. Mas é mesmo preciso abrir uma empresa para ser empreendedor? 

SM – Não necessariamente. Se estiver a trabalhar por conta própria, pode começar por abrir atividade em nome individual, o que permite ter menos encargos e dar um maior impulso financeiro ao negócio no primeiro ano. Quando o volume de vendas for mais elevado, então compensa abrir empresa. Se estiver a criar um negócio com sócios ou equipa, será melhor abrir empresa e perceber que tipo de investimentos e regalias existem para estas situações. Podemos sempre falar da mítica questão: “se tiveres empresa aberta és mais credível!”. Na realidade, credível é a atitude, a forma como se apresentam os serviços e produtos, a forma como se trata e lida com o cliente, por isso o importante é ser fiel a si próprio e resolver o “problema” do mercado.

CR – E, por vezes, são estes mitos e crenças limitantes que travam as pessoas, por isso é tão importante desmistificar! Um dos problemas com os quais os profissionais de Turismo se deparam é com o facto desta área ser muito vasta. Somos formados para a multidisciplinaridade e polivalência e, às vezes, é difícil abdicar de umas coisas em prol de outras. Consideras a especialização mesmo importante? Que dicas nos podes dar para começarmos por definir um target?   

SM – A especialização é crucial em todas as áreas. Como se costuma dizer: “se falas para todos, não falas para ninguém”. Isto acontece simplesmente porque não existe estratégia e a comunicação dispersa-se, em vez de ser clara, concisa e bem direcionada. Antes de mais devemos começar por nos perguntar: em que é que sou bom? Com que áreas me identifico? Que necessidades tenho? Com que pessoas gostaria de trabalhar? Aqui já estamos a segmentar e a procurar o nosso nicho. Depois, será importante analisar os nossos recursos, o mercado, a própria concorrência. Este passo é fundamental para consolidarmos a nossa ideia de negócio e criarmos a nossa Proposta de Valor forte e diferenciada.

CR – Dito assim até parece fácil…   

Atenção: isto é apenas a ponta do Iceberg! Um negócio e uma marca devem ter um propósito e um posicionamento claro, respondendo às necessidades do segmento e do público a que se dirigem. O melhor mindset a integrar é perceber que não se vendem serviços/ produtos, mas sim benefícios e experiências.


CR – Então não é assim tão simples como alguns gurus nos fazem acreditar… De qualquer das formas, não é um bicho-de-sete-cabeças assim tão grande… ou é?

A simplicidade tem a sua complexidade! Os gurus também erraram e erram muito, pois faz parte do processo de aprendizagem e crescimento. Todos temos receios e eles não desaparecem, apenas podemos compreender quais são, porque existem e o quanto nos podem potenciar para tirarmos os nossos sonhos da gaveta e transformá-los em realidade. Deixo uma provocação: ”O que farias se não tivesses medo?” Criar o nosso negócio, baseado nos nossos talentos e paixões, com o propósito de gerar felicidade e bem estar nas outras pessoas, é uma das missões mais belas e libertadoras! Para mim, o Turismo é isso mesmo: experiências, momentos, aprendizagem, descanso, plenitude e… podia continuar mas já me parece suficientemente inspirador!

CR – Concordo muito Sandra. A paixão é fundamental! E depois?

Esta é a base, o início! Depois vêm as ferramentas que ajudam a construir o negócio em si, ter uma identidade de marca e estratégia para divulgação dos serviços ou produtos nos canais escolhidos. Não temos todos de estar em todo o lado, só nos locais certos!

Bom, penso que já temos por onde começar! Muito obrigada, Sandra, pelo teu contributo e por nos trazeres estas reflexões tão importantes. Mais do que isso: um ponto de partida!

E você? Quando vai começar?

Conte-nos tudo, vamos gostar de saber!

Poderá gostar de ler, também, da série “Sobre…”, criada para ajudar os Profissionais de Turismo a ultrapassar a fase complexa de confinamento, decorrente da Pandemia Covid-19:

Sobre gerir a sua carreira em Turismo

Partilhar é cuidar!

Cátia Rodrigues

Cátia Rodrigues

categorias

artigos mais recentes

Sabia que…

Sabia que…

A ilha da Madeira tem um pão próprio? Trata-se do Bolo do Caco. Apesar de ter “bolo” no nome, não é um alimento doce....

Sabia que…

Sabia que…

O Parque Natural Sintra-Cascais é um museu a céu aberto? Com uma área superior a 14 000 hectares, abrange os...

Sabia que…

Sabia que…

A rainha do Fundão é a cereja? A cereja do Fundão é um produto de Indicação Geográfica Protegida. A sua produção é...

Sabia que…

Sabia que…

As amendoeiras existem em Portugal devido a uma linda história de amor? Diz-se que nos tempos em que o Algarve era...

Artigos Relacionados

Desmistificando os motéis

Desmistificando os motéis

Os motéis são um meio de alojamento que surgiu no início do século XX nos Estados Unidos. O objetivo da sua criação foi corresponder a uma necessidade de acomodação por parte dos camionistas que conduziam muitas horas, precisavam de algum conforto...

Continue Reading
Acredite: o contrário do amor não é o ódio!

Acredite: o contrário do amor não é o ódio!

A maior parte das pessoas pensa que o contrário do amor é o ódio. Mas não é. Há algo muito pior, que tem a capacidade de destroçar até o mais forte dos corações. Há tempos descobri o que era “dar o ghost” (nem sei se é bem assim que se diz!)....

Continue Reading
You cannot copy content of this page